quinta-feira, 11 de junho de 2009

EU LEVEI KEN PARK PARA A SALA DE AULA


Josemar da Silva Martins (Pinzoh)
Professor

Ultimamente o falso-moralismo ombreia com o discurso de uma “sociedade aberta”. Professores andam sendo chamados a prestar esclarecimentos à justiça, e aos pais dos alunos e à sociedade, sempre que tocam em temas polêmicos. E a polêmica pode ser apenas o uso de um palavrão em sala de aula. O problema é que estamos vivendo, com patrocínio das grandes corporações da mídia e com verba pública, uma cultura do palavrão. Prefeitos não param de contratar bandas que fazem sucesso com sua linguagem chula, para divertir a multidão em praças públicas, cuja presença de crianças e adolescentes é majoritária. Tenho muitas cenas gravadas em vídeo, que sobraram da edição do vídeo “O Estado da Arte da Fuleragem” (2007). Mas nenhum deles é chamado a prestar esclarecimentos nem à justiça, nem aos pais, nem à sociedade como um todo. Todo mundo reivindica para si a “liberdade de expressão” e o seu direito à diversidade, tudo de acordo com uma moralidade e uma ética “a la carte”. Mas professor não! Professor não pode gozar desta liberdade, porque apenas ele é responsabilizado pela formação dos “valores”. Grande piada sem graça!

Mas, como diria Jean Baudrillard – e como diz Odomaria Bandeira – tudo não passa de simulação. Ou mais: puro simulacro! As insinuações de sexo explícito em praça pública e custeadas com dinheiro público, a erotização até dos programas infantis, tudo feito em nome da diversidade e da liberdade de expressão, a violência e o sensacionalismo de programas de TV que vivem de sangue e obscenidade, não resistem a um choque de realidade. Eis porque levei Ken Park (2002), filme de Lary Clark, para a sala do 6º período do curso de Comunicação Social – Jornalismo em Multimeios (DCH III/UNEB).

Conheço tanto os elogios quanto a crítica ácida ao filme. Nos dois casos o motivo é o mesmo: a explicitude com que os temas são abordados e as cenas são tratadas! Há momentos em que tudo é tão real, que a interpretação quase atinge o seu grau zero! Tudo ali! Cru! No duro! Uma mijada é uma mijada, uma chupada é uma chupada e um orgasmo parece ser um orgasmo mesmo! Mas não é um filme erótico, não lhe excita. Pelo contrário: lhe convoca e até lhe insulta! Aliás, difícil é assisti-lo passivamente! A realidade abordada não é feliz, há uma sombra de degradação, frustrações, complexos, profunda incompletude, razão porque se instala uma espécie de utopia juvenil ligada aos prazeres sexuais. Nada demais! O sexo virou um bom negócio até para vender carro, cerveja – e antes para vender até cigarro!

Além disso, há muitos escritos sobre o hedonismo do presente e sobre essa promessa de gozo extra-humano, sempre adiado, promessa não cumprida, razão de tantas frustrações, ansiedades e depressões.

Mas eu levei o filme e o exibi também por outras duas razões. A primeira é uma provocação a esta imagem sempre pretensamente bacana, descolada, liberal, eclética e outros termos típicos da linguagem pós-moderna. Para muitos – os que querem se parecer sempre mais abertos – o filme é um teste. E eles caem! A abertura derrepente se fecha, bruscamente! Não conseguem ver nada no filme! Da minha parte, o filme permite mapear uma sala e apresentar o seu avesso. O avesso do que parece! O avesso da simulação! Cai a máscara do simulacro! Prefiro os outros, os que o encaram e pensam sobre ele, sobre o seu discurso! Os que se pensam vendo filme!

A segunda razão é que estou trabalhando “Comunicação e Educação II”. Tenho sempre claro para mim que aquilo que hoje é nomeado como Educomunicação (que é o centro do sentido da disciplina), não é uma coisa que se faz ao léu, como se fosse uma “arte contemporânea”. Educomunicação é o engajamento da comunicação em algum propósito educativo. E engajamento é algo motivado por uma indignação. Até na filosofia de Heidegger a indignação é princípio motor da reflexão! Não se pode pensar em Educomunicação sem uma intenção de intervir num jogo de forças com vistas a alterá-lo de algum modo. E para isso é preciso vislumbrar algo sobre este jogo de forças! É preciso mapeá-lo minimamente! A questão seria pensar: que jogo de forças constitui a realidade de Ken Park? E se tivéssemos que intervir naquela realidade, sem pretensões totalitárias, que produtos educomunicativos teríamos que pensar.

Mas há sempre os que se acham mais espertos – e mais lindos – que todo mundo. Narciso se manifesta! E como o mundo atual é profundamente relativista, há os que dizem: “e se eu quiser ser reacionário e conservador, eu não tenho direito não?” Derrepente, a gente está diante de uma aula de como organizar uma aula e, o que é pior, diante de uma extroversão do princípio de liberdade de expressão, quando ela atinge seu contrário ao ser levada até as últimas consequências, algo do tipo: "se sou tolerante tenho que sê-lo até mesmo com os intolerantes". Ou o contrário: " se sou tolerante não posso sê-lo com os intolerantes", o que dá quase na mesma. Típico paradoxo de nossos tempos. Tô é velho!
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Mas, em compensação, saíram coisas fabulosas da discussão. Até uma noção de comunicação que não enxerga comunicação no silêncio, no não dito, no interdito! E isso depois de um texto de Franklin Fearing, sobre a comunicação humana. Também concordo que nem tudo tem que ser explícito, mas o explícito no filme deve ter uma intenção. Por outro lado, penso: que tipo de jornalista se negaria a ver e a pensar sobre um filme como Ken Park, com a desculpa de que nele não há comunicação? E que teoria da comunicação sustenta isso? Acho que só não valeria dizer: “eu disse isso mas vocês pensem o que vocês quiserem”. Dizer isso virou moda, já que qualquer elefante o diria também!

A PECULIAR COMUNICAÇÃO HUMANA

[Este texto eu recebi por e-mail, eu imagino que ele é relativo à atividade programada do dia 26 de maio, mas não há identificação de autoria]
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Da interação do homem com o meio surge à comunicação. Em um processo de criação, compartilhamento, preservação da vida humana e de suas atividades são geradas situações de comportamento, que serão significadas pelos estímulos (símbolos, signos).
Nessa relação bidirecional, do privado para o público, do interno para o externo, há o processo compartilhado entre o emissor e o receptor do mesmo signo ou símbolo, em que as reações aos estímulos irão variar de acordo com a práxis cultural. Por exemplo, uma piada americana ao ser contada, só terá sentido se o indivíduo compreender, dominar as particularidades do idioma inglês.
O comportamento humano transforma as situações diversas – percepções, sensações e sentimentos, em palavras ou frases. O homem vai através dos símbolos ordenando, classificando e representando o mundo. Ao buscar compor o retrato do mundo, o ser humano tenta articular, através da cognição, os fatores externos, o sistema de valores e a percepção. A realidade vai se construindo, a partir de estratégias simbólicas, produzidas pelos animais, humanos ou não, para atingir um determinado fim.
De acordo, com o Campo psicológico, o homem está sempre em busca da satisfação das suas necessidades ou redução da tensão, criada pela instabilidade no meio circundante. Sempre estamos fazendo suposições automáticas ou instantâneas, acerca de uma provável ação do outro, seja este um objeto ou um indivíduo.
O homem na tentativa de perceber o meio externo, interage com seus valores e crenças, criando uma realidade semelhante (ressonância perceptiva) ou destoante (defesa perceptiva) do universo. Nessa empreitada pelo mundo da percepção-cognição, caminhamos da percepção fisionômica para a técnico-geométrica. Na primeira, mais característica da infância ou das culturas primitivas, somos regidos pelos sentimentos e estímulos desordenados, misturados as cores, cheiros, formas e sons, enquanto na segunda fase, somos dirigidos pela objetividade, pelo racional, em que nos defrontamos com um ser neutro, que busca separar o processo perceptivo do cognitivo.
Nesse jogo de significados, se percebe que não há dois universos, mas que são as diversas percepções de cada ser humano, que cria a falsa ilusão de existirem um mundo real e outro ilusório. Já para os psicólogos, há dois campos de estímulos que fazem com que os “universos” múltiplos coexistam. No primeiro campo, o comportamental, fisiogênico, predomina a subjetividade e sua análise surge a partir dos costumes, crenças, necessidades do indivíduo, enquanto o campo geográfico, já existente, nasce da descrição feita pela terminologia das ciências físicas ou da linguagem cotidiana.
Um exemplo dessa diversidade de quadros da realidade é a tribo Guayaki, que fundamenta e organiza a vida cotidiana de homens e mulheres, a partir dos tabus. São as regras que ditam a oposição dos sexos, através do uso do arco e cesto, da mesma forma em que criam a dicotomia do espaço, dando uma característica peculiar de coletores aos índios caçadores.
Nessa dicotomia de espaço, a floresta e o acampamento ganham significação diferente, para o homem a floresta é um local de plenitude existencial, ao contrário das mulheres, que obtém essa primazia apenas nos acampamentos.
Esta prática está também presente na estrutura dos bairros, através dos códigos sociais tácitos, baseados em sistemas de valores e comportamentos, que coíbem as transgressões dos usuários. Um indivíduo, ao tentar se inserir no bairro e fruir dos benefícios necessita se adaptar ao espaço do meio social organizado, que dita à forma de apresentação do corpo dos moradores, seja no modo de falar ou vestir-se, seja no modo de se apresentar ou de olhar.O meio social impede que haja dissonância nos jogos de comportamento, através do método da conveniência, em que o usuário se vê preso aos estereótipos, para ser identificável no rol dos personagens do bairro. Uma política de rua, baseada nos juízos de valor, em que a conveniência se torna o princípio da realidade, o controle do sistema de comunicação do bairro.

terça-feira, 9 de junho de 2009

ATIVIDADE PROGRAMADA

UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB
DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS HUMANAS III – DCH III
COLEGIADO DO CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL
DISCIPLINA: COMUNICAÇÃO E EDUCAÇÃO II – SEMESTRE 2009.1
PROFESSOR: JOSEMAR DA SILVA MARTINS (PINZOH)

ATIVIDADE PROGRAMADA

Car@s Alun@s,


Hoje comuniquei a Emanuel que estarei viajando para Campina Grande entre o dia 26 e o dia 29 de maio de 2009, onde vou participar do II Simpósio sobre Mudança Climática e Desertificação no Semiárido Brasileiro. Tentei mudar minha viagem para quarta, mas a minha mesa é na quarta, às 14 horas e, pela disponibilidade de vôos, eu chegaria lá depois do horário da mesa. Então tenho que ir na terça-feira mesmo, às 06h00minh, único horário disponível.
Sei que tardei em fazer este comunicado – e até me esqueci de conversar sobre isso com vocês na aula passada. Hoje falei para alguns alunos que ia viajar e não haveria aula, mas Emanuel sugeriu que eu deixasse uma atividade programada, então estou encaminhando a seguinte proposta:
1. Vocês estão com o texto "A COMUNICAÇÃO HUMANA", de Franklin Fearing (FEARING, Franklin. A comunicação humana. In: COHN, Gabriel. Comunicação e Indústria Cultural. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1971, p. 56 – 82). Este texto deveria ter sido discutido na aula passada, mas não houve tempo. Deveria, portanto, ser discutido na próxima aula, que seria esta. Então vamos nos valer dele.
2. A proposta é que vocês, já tendo lido o texto (é minha suposição), ESCREVAM UM TEXTO NO QUAL RESPONDAM, DE MODO DISSERTATIVO E ARGUMENTADO (mas não precisa ser exaustivo), AS QUESTÕES POSTAS ABAIXO:
A) No referido texto o autor afirma que a comunicação sempre visa produzir um resultado, uma reação, dirigir o comportamento, mas ela depende de sentidos compartilhados. Diz ele: "nenhuma comunicação ou significado socializado poderá existir sem que haja esse processo compartilhado através da mediação de certos estímulos chamados signos ou símbolos (p. 59). Mas as reações não são automáticas, elas dependem de certos fatores. Quais seriam esses fatores?
B) Segundo o texto, o que viria a ser o que o autor chama de "estruturação da realidade"?
C) Em que consistiriam as percepções fisionômica e técnico-geométrica?
D) O autor fala de campos de estímulo e situa os campos comportamental e geográfico; fala de objetos de estímulo situados no (e compondo o) "ambiente". Que aproximações essa parte do texto apresenta em relação aos temas que já discutimos em sala: “a conveniência”, “o arco e o cesto”, etc?
3. O texto pode ser feito individualmente ou em grupo (aceito até 5 pessoas por grupo), e após feito, deve ser postado no blog da disciplina (http://www.educomum.blogspot.com/). O prazo para que ele esteja postado é até sexta-feira, dia 29 de maio. Esta atividade, além de cobrir as aulas do dia 26 de maio, também servirá para compor uma primeira nota.
Entendo que, se o texto já foi lido, escrever sobre estes aspectos presentes no texto não apresentará nenhuma dificuldade. A proposta é essa. Ela é viável?
Aguardo as reações de vocês.
Abraços
Josemar da Silva Martins (Pinzoh)
Professor

segunda-feira, 1 de junho de 2009

RESPOSTAS À ATIVIDADE PROGRAMADA

a) O receptor por algum tempo foi visto apenas como um sujeito passivo, que absorvia toda a mensagem que o emissor lhe enviava. Entretanto, alguns teóricos se preocuparam com o conjunto de manifestações que compõem uma relação de comunicação. Como diz Peruzzolo (2004, p.133) há quem fala, que produz um acontecimento comunicativo e há que ouve/lê, que acolhe o texto , mas sobretudo o re-produz. Assim, os protagonistas do intercâmbio são dois sujeitos humanos.

Quando o emissor produz um texto ou qualquer outra forma de comunicação, ele antecipa a representação do leitor com o intuito de ser entendido. O emissor preenche seu texto com marcas culturais familiares ao leitor, desejando que ele entenda a informação nova presente no texto, tornando a relação de comunicação entre eles eficaz. A princípio o destinador partirá do conhecimento prévio do leitor e introduzirá no texto as informações supostamente desconhecidas que deseja transmitir.

Sendo assim, a mensagem utiliza de uma linguagem imbuída de informações, ideologias e impressões previamente compostas pelo autor do texto, que servirá como objeto de comunicação, caso os signos presentes nele tiverem significação simbólica para o leitor.

Tanto o emissor como o destinatário devem compartilhar conhecimentos culturais através da mensagem. Eles devem ter acesso à mesma língua ou pelo menos estarem aptos a decodificar determinados símbolos e compartilhar conhecimentos prévios nos mais diferentes âmbitos (icônicos, visuais, etc.)

No entanto, é importante ressaltar que mesmo o enunciador, tecendo seu interdiscurso para fazer sentido ao enunciatário, a resposta do leitor dependerá de um conjunto de fatores que envolvem a sua práxis social. Ele interpreta de acordo com sua experiência de vida. Como ressalta FEARING, as reações a estímulos nas situações de comunicação não são automáticas e mecânicas, mas sim dependem da totalidade de fatores culturais e de personalidade que cada pessoa leva para a situação.

b) A busca incessante pelo alcance de metas é inerente a natureza humana. Consciente ou inconscientemente, o indivíduo está a todo tempo reorganizando recursos externos e internos como valores e percepções, a fim de reduzir as tensões do meio em que se encontra inserido.
...o indivíduo sempre luta para reduzir as suas tensões. A necessidade de estruturação cognitiva, às vezes chamada de “necessidade de significação”, constitui, na realidade, a necessidade de estabelecer uma estrutura mais estável e, conseqüentemente, reduzir a tensão.

Cognitivamente, ele estrutura situações, universos para depois elaborar estratégias de superação. A isso dar-se o nome de “estruturação da realidade”. Essa estruturação não é um plano desenvolvido de forma consciente pelo sujeito da ação. Ela é automática e instantânea e precede toda e qualquer ação do indivíduo, inclusive em um simples ato comunicativo.

c) A apreensão do universo pelo homem está estritamente relacionada ao sistema de valores que o mesmo tem na percepção da realidade. Ao perceber um universo além do modo técnico-geométrico, que é a visão puramente objetiva do que é observado ou descrito, ele passa a se valer da percepção fisionômica que é a capacidade de perceber esta mesma realidade ou espaço com um pensamento criativo, que vai além da decodificação óbvia de signos explícitos para além da subjetividade humana.

d) Os estímulos comportamentais e geográficos, que regem as mais distintas formas sociais, estão intimamente ligados, exercendo interferências entre si. Cada sociedade vive sob o ditame de suas regras e convenções, campos comportamentais, que são determinados pelos campos geográficos: o próprio meio onde o grupo social está inserido.

Essa relação estabelecida mantém as estruturas sociais existentes, mesmo contrariando as possíveis aspirações individuais, que muitas vezes vão de encontro com os padrões preestabelecidos por cada grupo ou comunidade.


(MARCELA DIAS, MARIA DIONISIA E SÂNGELA RIBEIRO)